A Polícia Civil deflagrou, nesta segunda-feira (15), a 2ª fase da Operação Carrasco, que investiga um suposto esquema de maus-tratos a animais, associação criminosa e estelionato em Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre. “Os alvos da ofensiva são uma protetora de animais e dois veterinários investigados por um esquema criminoso de eutanásia fraudulenta de cães e gatos para desviar valores angariados via pix para tratamentos que nunca ocorreram”, informou a corporação.
Os presos preventivamente são a ex-secretária de Bem-Estar Animal de Canoas, Paula Lopes; a veterinária Tainara Harth, que atuava como responsável técnica da secretaria durante a gestão de Lopes; e o veterinário Marcos Vinicius Jenisch, proprietário de uma clínica veterinária em Porto Alegre.
Além das prisões, os agentes cumpriram 12 mandados de busca e apreensão e recolheram celulares, computadores e outros materiais que serão analisados para o avanço das investigações.
Durante a operação, também foi apreendido um cão debilitado e sem as patas dianteiras. Segundo a polícia, o animal era frequentemente utilizado em publicações nas redes sociais para sensibilizar o público e incentivar doações financeiras.
1ª fase investigou eutanásias na Secretaria de Bem-Estar Animal
As investigações tiveram início com a apuração de supostas irregularidades na Secretaria Especial de Bem-Estar Animal (Sebea) de Canoas. A primeira fase da Operação Carrasco foi deflagrada em 4 de setembro de 2025 e teve como alvo a sede da secretaria, a residência de Lopes, um sítio onde funcionava seu Instituto Nacional de Proteção Animal e a casa de uma veterinária que atuava junto ao órgão municipal.
Após a análise do material apreendido, os investigadores constataram que o número de eutanásias realizadas no local era significativamente superior ao esperado para o perfil dos animais recolhidos e também acima dos índices registrados em anos anteriores.
Os primeiros alertas partiram de usuários do serviço e de servidores da própria secretaria.
Esquema fora da estrutura pública
Na segunda fase da operação, a Polícia Civil aprofundou a análise das provas e concluiu que a principal investigada mantinha relação direta com veterinários que atuavam fora da secretaria.
De acordo com a investigação, animais resgatados eram encaminhados para eutanásia mesmo em situações em que ainda existiam alternativas de tratamento.
Em um dos casos analisados, uma veterinária teria informado sobre a possibilidade de determinada doença e questionado se seria realizado um exame antes de qualquer decisão. Segundo a polícia, a resposta atribuída à então secretária foi para que a eutanásia fosse realizada sem a confirmação diagnóstica.
Os investigadores destacam que o caso envolvia suspeita de cinomose, doença cuja confirmação depende de exames específicos.
A apuração também identificou que, na mesma data, a investigada teria publicado nas redes sociais pedidos de apoio financeiro para custear o suposto tratamento do animal, enquanto, nos bastidores, autorizava sua eutanásia.
Para a Polícia Civil, a situação reforça a suspeita de que as campanhas de arrecadação utilizavam uma narrativa pública de cuidado e tratamento que não correspondia ao destino efetivo dos animais.
Em outra ocorrência, a ex-gestora teria discutido com uma veterinária o caso de um animal com suspeita de esporotricose. Embora a profissional tenha informado que havia possibilidade de tratamento, a investigação aponta que a investigada respondeu com uma expressão interpretada pelos policiais como autorização para a realização da eutanásia.
Arrecadações ultrapassaram R$ 670 mil
Segundo a Polícia Civil, a investigada utilizava sua imagem pública como protetora de animais para legitimar campanhas de arrecadação online. Nas redes sociais, ela costumava divulgar fotos de animais com deficiência que afirmava ter adotado ou resgatado.
Mesmo após deixar o cargo de secretária, o suposto esquema teria continuado por meio da associação mantida em um sítio ligado à investigada.
De acordo com os dados levantados pelos investigadores, ela realizou 549 campanhas de arrecadação desde 2020. Ao todo, o instituto recebeu R$ 672.670,39 em doações feitas por 14.545 pessoas.
Delegados falam em exploração da causa animal para obtenção de lucro
A delegada Luciane Bertoletti afirmou que os investigados teriam estruturado uma organização criminosa em torno da morte dos animais.
“Eles organizaram-se como uma estrutura criminosa. A morte de cada cão não era um ato de piedade, mas um ato de lucro. A polícia agora busca os registros de microchip de todos os animais que sumiram para, quem sabe, tentar identificar quantas vidas foram sacrificadas em nome de pix. A Operação Carrasco marca o fim de um ciclo de impunidade. A prisão de quem deveria ser a protetora dos animais ecoa, alertando sobre a necessidade de fiscalização rigorosa nas ONGs e Secretarias de Bem-Estar Animal”, declarou.
O delegado Cristiano Reschke, diretor da 2ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana de Canoas, também destacou a gravidade do caso.
“O que a Operação Carrasco desvendou foi um cenário de crueldade extrema e manipulação perversa da solidariedade pública. A investigada não apenas decidia pela morte deliberada de animais que poderiam ser salvos, mas utilizava o sofrimento dessas criaturas como isca emocional para um esquema de estelionato financeiro. É estarrecedor constatar que, enquanto o público doava recursos acreditando financiar a cura e o bem-estar, nos bastidores, a ordem era a eliminação sumária para maximizar o lucro”, afirmou.
Investigação continua
A Polícia Civil informou que as investigações prosseguem e agora buscam identificar quantos animais podem ter sido vítimas do que os investigadores classificam como uma “eutanásia financeira”.










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