Enquanto milhões de brasileiros celebravam a vitória da Seleção sobre a Escócia na Copa do Mundo, na noite de 24 de junho, uma família de Garopaba, no Sul de Santa Catarina, enfrentava uma tragédia.
O casal Camila Lisman Pita, de 47 anos, e Raul Luis Mendonça da Silveira, de 49, vivia havia nove meses com o filho, Ícaro Pita da Silveira, de 6 anos, na casa que levou cinco anos para ser construída no bairro Capão.
O imóvel, localizado em área de difícil acesso, foi destruído por um incêndio que, segundo o laudo do Corpo de Bombeiros, começou após um curto-circuito no quadro de disjuntores.
Os moradores informaram que tudo foi perdido e eles precisam de ajudar para recomeçar. Uma vaquinha online foi montada por uma vizinha para ajudar a família.
A meta é arrecadar R$ 100 mil para a reconstrução do local e a compra de novos móveis. Até o momento, 359 pessoas contribuíram, e mais de R$ 38 mil foram arrecadados. Clique aqui para ajudar.
“Todo apoio que tem chegado até nós, todas as pessoas, toda essa corrente do bem, vem como um abraço para nós. A gente está se sentindo abraçado por uma comunidade, por uma cidade inteira e por muitos outros lugares”, disse Camila à PIXTV.
O incêndio
Na noite em que tudo aconteceu, a família decidiu assistir ao jogo do Brasil em casa. “Tava tudo organizado, tinha comprado várias coisinhas gostosas, tava louca pra tomar um banho antes do jogo começar, pra já tá de pijama e arrumadinha pra ir pra cama após o jogo. Meu filho não tava muito bem de saúde, estávamos tratando uma infecção que ele tinha. Então estávamos em uma semana de muitos cuidados”, comentou Camila.
A paulistana, formada em Letras, contou que só teve tempo de dar banho no filho antes da transmissão. “Graças a Deus, porque senão o fogo teria começado antes do meu marido chegar em casa”, ressaltou.
Segundo ela, logo após o fim da partida, o filho dormiu e o marido ficou ao telefone com a irmã, enquanto ela foi tomar banho. Antes, ligou um aquecedor no quarto devido ao frio e acabou se esquecendo de desligá-lo.


Durante o banho, a energia acabou. “Gritei pro meu marido ir logo resolver, porque estava muito frio e eu ainda estava com creme no cabelo. Isso já tinha acontecido no dia anterior, o disjuntor tinha caído durante o banho do meu filho. Eu fui lá, liguei de novo, tudo normal. Mas quando meu marido foi ver a caixa de disjuntor, ela já estava pegando fogo”, relatou.
Em meio ao escuro, Camila se enrolou em uma toalha e correu para resgatar o filho. Ela orientou o marido a ir até o carro pegar o extintor e chamar os vizinhos. Em seguida, ligou para os bombeiros e para a irmã. Como a casa era de madeira, o material contribuiu para a rápida propagação das chamas, o que fez com que as tentativas do casal de contê-las fossem em vão.
O Corpo de Bombeiros foi acionado por volta das 22h e levou cerca de duas horas para combater o fogo. A moradora acompanhou parte do trabalho de dentro do carro. Como estava estacionada um pouco acima do terreno, não conseguiu ter noção de que todo o imóvel havia sido afetado.
“Eu estava desesperada, com muito frio e minha irmã chegou, colocou um casaco nas minhas costas e disse para irmos para a casa dela e eu não conseguia sair. Eu tava mal […] ela assumiu o volante para me levar para a casa dela e foi ai que eu vi o fogo e desabei. Foram cinco anos construindo essa casa, nove meses morando nela e ver ela daquele jeito ”, pontuou.


Não bastasse a grande perda material, uma dor ainda maior atravessa a família: o gatinho de estimação, chamado Júpiter, está desaparecido. “A parte mais dolorosa e mais difícil de falar é sobre nosso mascotinho”.
O felino não estava no imóvel quando o fogo começou, mas, conforme relato de Camila, ele apareceu e entrou em um dos cômodos no momento em que eles já estavam do lado de fora e ela ligava para os bombeiros. A moradora tentou resgatá-lo, mas a fumaça dificultou a visão e, com muita tosse e explosões na porta, foi obrigada a sair do local.
“Foi um momento de muita dor e, até então, a gente não encontrou o gatinho e estamos na dúvida se ele ficou lá dentro, se nós perdemos ele ou se ele saiu pela porta e se perdeu. Essa dúvida é a nossa maior dor e a fonte das minhas orações, que têm tirado meu sono. Toda vez que eu acordo de madrugada é para orar, agradecer a Deus pelas nossas vidas e pedir para que ele volte. Meu filho dorme e acorda falando do gatinho”, disse.




Solidariedade
Em meio a tantas incertezas sobre o futuro, Camila, Raul e Ícaro também encontraram razões para acreditar que as coisas vão se reerguer ao se depararem com a solidariedade de dezenas de pessoas, conhecidas ou desconhecidas.
Eles receberam doações de roupas, comida, eletrodomésticos e também já garantiram alguns materiais para ajudar na construção do novo lar. No último domingo (28), o trio deixou a casa da irmã de Camila, onde estava acolhido, e agora está hospedado, sem custos, em uma pousada no bairro Ferrugem. O proprietário do local cedeu um dos chalés para que eles permaneçam por um tempo, até conseguirem alugar outro imóvel.


“Eu também tenho recebido valores via Pix, muitas pessoas têm ajudado. São muitos amigos, muita gente se comoveu e nos apoiou, inclusive pessoas que não tinham muito e que tiraram do próprio prato para nos ajudar. É algo surreal. Quem tinha mais, ajudou mais, quem pôde contribuir, contribuiu. Sem palavras. Hoje está todo mundo abraçando a nossa dor, mas lá na frente eu quero ter toda essa galera para abraçar a nossa alegria, a nossa conquista. A nossa casa vai ter um pedacinho de cada um, um detalhe de cada um, o amor de cada um. Eu já era muito grata pelo meu lar, agora, sabendo que vou ter a minha casa de volta — não sei quando —, meu Deus do céu… vai ter um pedacinho de todo mundo que se preocupa com a gente. É muito tocante mesmo, eu fico sem palavras”, concluiu Camila.
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