Inédito no Rio de Janeiro, um transplante cardiopulmonar – procedimento que substitui simultaneamente o coração e o pulmão – devolveu qualidade de vida a Márcia Branquinho, de 51 anos, operada no Hospital Copa D’Or, da Rede D’Or, na Zona Sul da cidade.

Os órgãos do doador chegaram de helicóptero direto ao heliponto do próprio Copa D’Or, o que garantiu agilidade logística essencial nesse tipo de procedimento. A cirurgia durou mais de 12 horas, com uma equipe de 20 profissionais atuando em revezamento contínuo dentro do centro cirúrgico.
A primeira etapa foi a anestesia e a instalação da circulação extracorpórea (CEC), equipamento que assumiu temporariamente as funções do coração e dos pulmões enquanto os dois órgãos de Márcia eram retirados simultaneamente. Na sequência, o coração e o pulmão do doador foram implantados e conectados aos vasos sanguíneos e às vias aéreas de Márcia. Após a retomada da circulação e do funcionamento dos órgãos, a equipe utilizou a ECMO (oxigenação por membrana extracorpórea), suporte que auxilia a função dos pulmões, por 13 dias, permitindo uma recuperação gradual e protegendo os órgãos de uma possível sobrecarga.
O procedimento foi realizado em uma estrutura preparada para casos de alta complexidade. O Copa D’Or reúne equipes multidisciplinares, programas de transplante e recursos especializados em cirurgia cardiovascular e torácica, permitindo a condução integrada de procedimentos de altíssima complexidade.
Segundo Martha Pinheiro, chefe de arritmologia da Rede D’Or e responsável pelo caso da paciente, Márcia é tratada pelo hospital há mais de 16 anos. “Ela tinha uma condição cardíaca e pulmonar grave”, explica a médica. Nesse período, a paciente chegou a sofrer uma parada cardíaca e foi salva graças ao atendimento rápido na emergência do Copa D’Or. Com a progressão do quadro, o transplante dos dois órgãos se tornou necessário.
Portadora de hipertensão arterial pulmonar e cardiopatia congênita, diagnosticada aos 15 anos, Márcia conta que sempre monitorou a doença com apoio médico. Nos últimos dois anos, no entanto, sua qualidade de vida piorou sensivelmente com o agravamento do quadro clínico. Inicialmente relutante diante da complexidade da cirurgia, ela contou com o suporte próximo da equipe multiprofissional até aceitar o transplante. “Eu espero voltar a correr, nadar, arrumar minha casa – que já estava bem difícil no final –, coisas básicas. Quero voltar a estudar, viver minha vida normal de novo”, afirma Márcia, que deixou o hospital vestindo uma camisa com a frase “doe órgãos, salve vidas” e foi recebida com festa por familiares e amigos.
Bruno Marques, cirurgião cardiovascular da Rede D’Or, integrou a equipe responsável pela cirurgia e destaca o caráter inédito do procedimento. Segundo ele, transplantes duplos como esse são reservados a pacientes em estágio terminal, quando tanto a função cardíaca quanto a respiratória estão irreversivelmente comprometidas. “É muito bom ver a Márcia de alta após uma cirurgia tão complexa. Fizemos um transplante duplo, unindo duas equipes, tanto a de cirurgia torácica quanto a cardiovascular, o que mostra o entrosamento e a modernidade do hospital para esses procedimentos tão complexos”, destaca.
Eduardo Fontena, cirurgião torácico e de transplante pulmonar do Copa D’Or, que também integrou a equipe médica, destaca que um procedimento dessa magnitude só é possível graças à estrutura de alta complexidade do hospital, que reúne equipes de cirurgia torácica e cardiovascular plenamente entrosadas e preparadas para atuar em conjunto. “Isso reflete o entrosamento entre a equipe de cirurgia torácica, responsável pelo transplante do pulmão, e a equipe de cirurgia cardiovascular, responsável pelo transplante do coração — um trabalho conjunto de altíssima complexidade”, ressalta.
Para Luciana Tagliari, coordenadora de UTI do Programa de Transplante Pulmonar da Rede D’Or, casos como o de Márcia resumem o sentido de trabalhar com transplantes: “A decisão maior e o que mais encanta dentro do transplante é a possibilidade de ter futuro. Transplante é devolver o futuro.”
No Setembro Verde, mês de conscientização sobre a doação de órgãos, ela reforça a importância de se falar sobre o tema em família – inclusive diante da perda de um ente querido. “Eu vivencio e sou testemunha dessa possibilidade, de ver pessoas voltando pra casa pelo carinho, pelo amor à vida, pela resiliência, e por dar valor à vida quando uma família diz sim”, completa.
De acordo com dados do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), quase 50 mil pessoas esperam por um órgão no Brasil. Márcia, que hoje pretende voltar às pequenas rotinas do dia a dia, faz questão de usar sua própria história para reforçar a mensagem de conscientização. Para ela, cada doação representa uma nova chance de vida para quem espera, assim como aconteceu com a sua própria história. “Meu slogan agora é doe órgãos e salve vidas”, resume a paciente.
VEJA TAMBÉM:
- RJ: Polícia prende ex-vereadora Veronica Costa, condenada por tortura contra o ex-marido
- Preso há 30 anos, Marcinho VP permanece em presídio federal fora do Rio de Janeiro
- Eleições 2026: TRE-RJ indefere 15 candidaturas por indícios de vínculos criminosos; saiba mais
- PF mira grupo suspeito de desviar encomendas postais; mandados são cumpridos no RJ e em SP
- Polícia do RJ indicia 13 pessoas em caso de morte de ciclista espancado em Copacabana
- Justiça do Rio condena músico a 28 anos de prisão por feminicídio; vítima sofreu mais de 100 lesões






