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El Niño pode intensificar ondas de calor e acende alerta para a saúde cardiovascular e neurológica

Fenômeno climático pode aumentar a exposição a temperaturas extremas; especialistas explicam os riscos e orientam sobre os cuidados.
Foto: Maria Korneeva/ Getty Images

Redação PIXTV (Site)

9 de setembro de 2026

atualizado às 11:37

O avanço do El Niño não deve ser acompanhado apenas pelos impactos no clima. Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, o fenômeno tem potencial para alterar os padrões de temperatura e chuva em diferentes regiões do mundo e aumentar a ocorrência de eventos extremos, em um cenário de aquecimento global que pode contribuir para climas ainda mais elevados. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) estima que o El Niño tenha cerca de 90% de chance de persistir até o fim do ano.

Além dos impactos ambientais, o aumento da frequência e da intensidade de ondas de calor representa uma preocupação para a saúde. Períodos prolongados de temperaturas extremas exigem maior esforço do organismo para manter a temperatura corporal e podem sobrecarregar especialmente o coração e o cérebro. Estudos científicos já relacionam a variabilidade climática associada ao El Niño a impactos sobre a saúde, enquanto pesquisas mais recentes reforçam a existência de uma relação direta entre calor extremo e maior risco cardiovascular.

Alterações no ritmo cardíaco

Segundo o Dr. Nilton Carneiro, cardiologista do Hospital Santa Catarina – Paulista, quando a temperatura ambiente sobe, o organismo aumenta a circulação de sangue na pele e a produção de suor para tentar dissipar o calor. Esse mecanismo exige maior trabalho do coração, que precisa bombear mais sangue e pode acelerar os batimentos para manter a pressão arterial. Ao mesmo tempo, a perda de água e eletrólitos (minerais presentes no corpo que ajudam a controlar a hidratação) pelo suor pode provocar desidratação e alterações do ritmo cardíaco. Em pessoas que já apresentam alguma limitação cardiovascular, esse esforço adicional pode desencadear eventos agudos.

O especialista explica que, com o calor intenso, há maior tendência a uma combinação especialmente desfavorável para pessoas com doenças cardiovasculares. A desidratação provoca hemoconcentração (diminuição do volume que deixa o sangue mais denso), enquanto a perda de eletrólitos, como sódio e potássio, pode interferir na atividade elétrica do coração. Paralelamente, a vasodilatação e o aumento da frequência cardíaca elevam a demanda de oxigênio pelo músculo cardíaco. Em pacientes com aterosclerose, por exemplo, esse desequilíbrio contribui para a ocorrência de eventos como infarto e arritmias.

Uma manifestação científica publicada no European Heart Journal em 2025 também destaca a desidratação, o aumento da demanda de oxigênio do miocárdio e processos inflamatórios entre os mecanismos que ajudam a explicar a associação entre calor extremo e problemas cardiovasculares. “Quando a temperatura sobe, o coração precisa trabalhar mais justamente em um momento em que a desidratação pode reduzir o volume circulante. Por conta disso, a perda de eletrólitos pode favorecer alterações do ritmo cardíaco”, alerta o Dr. Nilton.

Entre os grupos que exigem maior atenção estão idosos, pessoas com insuficiência cardíaca, doença coronariana ou histórico de arritmias, hipertensos, diabéticos, gestantes, crianças pequenas e pacientes que utilizam diversos medicamentos. Pessoas com doenças neurológicas também merecem atenção especial, já que algumas dessas condições comprometem mecanismos de percepção da sede, regulação da temperatura, equilíbrio e pressão arterial.

Condições neurológicas exigem atenção

O calor excessivo tem repercussão cardiológica, porém, não afeta apenas o coração. O cérebro também é diretamente impactado pela elevação da temperatura corporal e pela perda de líquidos. De acordo com o Dr. Maurício Hoshino, neurologista do Hospital Santa Catarina – Paulista, a desidratação pode reduzir a perfusão cerebral, ou seja, interferir no fluxo de sangue no cérebro, e provocar alterações no equilíbrio de eletrólitos, além de favorecer hemoconcentração, um desequilíbrio na proporção de células sanguíneas que gera maior propensão à formação de coágulos.

Entre as manifestações neurológicas que podem se tornar mais frequentes ou graves em períodos de calor intenso estão o acidente vascular cerebral (AVC), crises epilépticas em pessoas predispostas, piora de sintomas da esclerose múltipla, alterações relacionadas à doença de Parkinson, além de episódios de confusão mental e piora cognitiva em pessoas com demência.

As crises de enxaqueca também podem ser agravadas pela combinação de desidratação, vasodilatação e exposição ao calor. “O golpe de calor é a manifestação neurológica mais grave relacionada às altas temperaturas e constitui uma emergência médica. Pode provocar alteração do nível de consciência, convulsões, edema cerebral e outras complicações sistêmicas”, explica o Dr. Maurício.

O AVC merece atenção especial. O neurologista ressalta que estudos apontam associação entre temperaturas elevadas e aumento da ocorrência de eventos cerebrovasculares, incluindo casos isquêmicos (entupimento arterial) e hemorrágicos (rompimento de um vaso sanguíneo com vazamento de sangue no cérebro), além de pior prognóstico e maior mortalidade. Entre os mecanismos envolvidos estão a desidratação, alterações da pressão arterial, disfunção dos vasos sanguíneos, alterações da coagulação e aumento de processos inflamatórios.

A qualidade do ar também pode representar um agravante em períodos de calor extremo, especialmente quando há queimadas. A fumaça contém material particulado fino capaz de atingir profundamente o sistema respiratório e desencadear respostas inflamatórias sistêmicas. Esse processo pode afetar os sistemas cardiovascular e nervoso e contribuir para um estado pró-trombótico (desequilíbrio em que o sangue coagula mais facilmente do que o normal), o que aumenta, no caso de pessoas mais suscetíveis, a preocupação com eventos cerebrovasculares e cardiovasculares.

Qualidade do ar também influencia

Uma revisão publicada em 2026 destaca justamente a interação entre altas temperaturas, poluição e eventos extremos como fatores capazes de agravar diferentes fatores de risco. “Em dias de calor intenso, pessoas que já tiveram AVC ou apresentam Parkinson, esclerose múltipla, demência ou epilepsia precisam redobrar os cuidados, assim como idosos e pacientes com outras doenças crônicas”, alerta o Dr. Maurício.

Como reduzir riscos?

Para reduzir os riscos, a recomendação dos especialistas é manter uma hidratação regular ao longo do dia, sem esperar o surgimento da sede, com respeito a eventuais restrições de líquidos determinadas pelo médico. Também é importante evitar exposição direta ao sol e atividades físicas nos horários de maior calor, priorizar roupas leves, manter os ambientes ventilados ou climatizados e acompanhar a qualidade do ar em dias de queimadas.

Pacientes que utilizam medicamentos como diuréticos ou anti-hipertensivos não devem suspender ou modificar as doses por conta própria. Em períodos de calor, algumas pessoas podem precisar de uma avaliação individualizada sobre a medicação, principalmente diante de sintomas como tontura, queda da pressão ou alterações no peso. A orientação médica é fundamental para evitar tanto a desidratação quanto a descompensação de doenças preexistentes.

Conheça os sinais de alerta

Tontura, fraqueza, dor de cabeça, náuseas, cãibras, palpitações, falta de ar e queda da pressão são sinais de que o organismo pode estar em desequilíbrio com o calor. Já confusão mental aguda, sonolência excessiva, convulsões, desmaio, dor de cabeça intensa e persistente, alteração da fala, perda de força, dor no peito ou falta de ar importante exigem avaliação médica imediata.

“Calor intenso não deve ser encarado apenas como um desconforto. Em pessoas vulneráveis, ele pode representar um fator de descompensação de doenças já existentes. Por isso, hidratação, controle da exposição e atenção aos sinais de alerta são medidas de prevenção importantes”, finaliza o Dr. Nilton, cardiologista do Hospital Santa Catarina -Paulista.

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